Taxas de juros das principais economias mundiais (05/08/2019 – twitter @charliebilello)

Pois é. Acabou a lógica. Poupar no longo prazo em muitas economias desenvolvidas agora significa pagar pelo privilégio de emprestar o seu dinheiro para governos e nações.

Os mais poderosos bancos centrais do mundo se cansaram de esperar. Após 10 anos imprimindo dinheiro como se não houvesse o dia de amanhã, desistiram de aguardar a desejada inflação subir e mudaram radicalmente o tratamento do doente.

De 2008 para cá o que se tem feito é injetar liquidez (imprimir dinheiro) e inundar o mercado na esperança de elevar a inflação para a meta, que nas economias desenvolvidas gira em torno de 2%, e contra todos os prognósticos (admito que o meu também), não deu certo.

Até então na história moderna, mais dinheiro em circulação gerava mais inflação (perda do poder de compra da moeda), era um reflexo natural. Perceba o verbo no passado, era, não é mais. Descobrimos que o excesso de liquidez sozinho não é fator suficiente para promover a perda do valor do dinheiro. Tempos estranhos…

Mas o ser humano é criativo, e para atingir seus objetivos ele cria novos mecanismos, e o coelho que saiu da cartola dessa vez é o juro negativo. A notícia boa é que a vacina que te protege da hiperinflação é a mesma que te protege do juro negativo, os investimentos não correlacionados às finanças convencionais, como ouro, Bitcoin e demais Criptomoedas.

Porque governos gostam da inflação (desde que pequenina, é claro)…

Governos emitem títulos para se financiar. Esqueça o varejinho tipo Tesouro Direto. Os grandes compradores de títulos (dívida) dos governos são bancos e fundos de pensões, e não necessariamente porque eles querem, mas sim por uma obrigação regulatória.

O truque reside em emitir divida de longo prazo com um juro mais baixo do que a inflação, e na prática, você está dando um calote branco na sua dívida, e como os números só andam pra frente, esse efeito é psicologicamente passado por despercebido.

Um exemplo didático: Digamos que você me empresta R$ 100,00 em dinheiro e nosso acordo é de um juro de 1% ao ano. Daqui um ano eu te devo R$ 101,00. Se eu como governo conseguir uma inflação sob-controle de 2%, para você ter o mesmo poder de compra, eu deveria te pagar R$ 102,00… Na prática, em embolsei a diferença R$ 1,00 na forma de calote branco.

E é isso que a turma estava tentando forçar desde a grande crise de 2008. De 2008 até 2015 a taxa de juros nos EUA era praticamente 0% ao passo que se injetava dinheiro aos montes no mercado tentando criar uma inflação na casa de 2%… A taxa de juros subiu para 2 e pouquinho por cento de 2015 até 2019 numa tentativa de normalizar um quadro esquizofrênico e nessa semana, voltou a cair, rumo a taxas abaixo de zero. Deu tudo errado e ninguém sabe o motivo.

O mesmo aconteceu na Europa e no Japão…

Hora de jogar a toalha

“Já que não deu certo e não conseguimos subir a inflação e precisamos descaradamente meter a mão no bolso da turma, o que podemos fazer?”

Horas, com juros negativos! A resposta parece óbvia, mas junto com essa decisão você tem o efeito gritaria, um revés grande no coro da sociedade.

Usar a inflação para consumir sua dívida é indolor porque de algum modo o seu R$ 100,00 virou R$ 101,00 (ele cresceu), mesmo que você tenha sida roubado em R$ 1,00. A maioria não sente que está sendo roubada e não há barulho.

Usar juros negativos vai fazer seu R$ 100,00 virarem R$ 99,00 e isso dói pra caramba, embora na prática o efeito seja exatamente o mesmo. O roubo é evidente diante de seus olhos.

Enfim, estamos vendo atrocidades como a Grécia pagando menos juros que os Estados Unidos para se financiar em 10 anos e a Alemanha pagando juros negativos para dívidas de 30 anos. Aqui no Brasil demos os nossos primeiros passos rumo ao juro real negativo ao baixar a taxa SELIC para 6% ao ano (agora sua poupança vai render 0,32% ao mês).

Efeito esperado versus efeito prático

O efeito esperado era estímulo da economia. Veja, na teoria até então conhecida se as pessoas físicas e jurídicas têm acesso ao dinheiro barato, é de se esperar que elas peguem dinheiro emprestado para aumentar o consumo e para fazer investimentos…

Em teoria com juro baixo você deveria estar comprando carro em 72x e levando a família pra Disney todo ano…

Na prática, o pessoal está pegando essa grana grátis e comprando ações numa corrida maluca, e as principais bolsas ao redor do planeta estão experimentando recordes e máximas históricas.

O dinheiro não está indo para consumo nem para investimento e ninguém ainda descobriu como forçar isso.

Uma pergunta honesta: A Microsoft vale hoje 30% a mais do que ela valia há 6 meses atrás? Não é razoável né… Não quero fazer a Microsoft de vilã, ela é só um exemplo da insanidade que tem tomado conta da SP500 nos Estados Unidos. O rally é generalizado.

A temporada de resultados corporativos nos EUA foi ruim e as ações subiram. Algo estranho está muito, mas muito estranho.

Desempenho em 2019 dos principais índices ao redor do globo.

Enquanto isso na Sala de Justiça

É obvio que o cheiro de tudo isso é péssimo. Ao passo que a turma de Wall Street comemora máxima em cima de máxima nas ações, Rússia e China, por exemplo, estão comprando, literalmente, toneladas de ouro e se preparando para uma eventual crise de proporção gigantesca, não é a toa que a cotação do metal sobe 19% nos últimos 12 meses.

Com os juros caindo vai chover gente mandando você comprar ações e as viúvas da renda fixa de 1% ao mês vão comprar dívida privada vendida pelo gerente do banco sem saber o risco de calote ao qual estão expostas…

Não quero que você não invista em ações, pelo contrário, no Brasil principalmente as perspectivas são boas com as reformas e com a eventual retomada da economia, mas não se empolgue e não se deixe tomar por essa euforia.

Vá com parcimônia e se não souber direito o que está fazendo, busque FIAs (Fundos de Investimentos em Ações) com gestão profissional. O espirro da China no dia de ontem está aí para ser exemplo do que estou falando!

Por mais que os juros sejam baixos é recomendado ter algum dinheiro, e, principalmente buscar algumas opções para se proteger caso o pior aconteça. Não esqueça que durante o pânico só existem vendedores, e comprador compra pelo preço que quer… A tradicional metáfora do cinema pegando fogo com todos se encavalando na porta de saída estreita.

E para fechar esse raciocínio, não seria espantoso se ainda em 2019 algum Banco Central oficialmente declarasse alguma Criptomoeda em seu balanço…

Resumo da ópera

A dívida dos governos é impagável e não será paga. Após 10 anos tentando estimular a volta da inflação para reduzir a dívida em forma de calote branco, Bancos Centrais mudam sua estratégia e lançam mão dos juros negativos para, na prática, obter os mesmos efeitos.

A turma está pegando o “dinheiro grátis” e inflando os mercados acionários, e bolsa que sobe é noticiário positivo todo dia, afinal, ninguém quer saber o porquê, todos querem é que as ações subam cada vez mais.

Assim como no cenário antagonista da hiperinflação, esse cenário de sinal trocado pede exatamente o mesmo tipo de proteção para o seu patrimônio.

Jogue no caldeirão um tempero de guerra comercial entre China e EUA com tarifa de um lado e desvalorização forçada da moeda de outro e veja o quanto uma moeda que não depende de governo nenhum pode ter seu valor (estou me referindo especificamente ao Bitcoin).

Lembro também que não é porque a inflação não veio nos últimos 10 anos que ela nunca virá… Na verdade não sabemos…

Na dança das cadeiras um dia a música para e não tem cadeira para todo mundo. Comprar hoje um bom punhado de Bitcoin e Criptomoeda pode ser um movimento bastante inteligente na diversificação e principalmente na proteção de seus investimentos.

Obs: Este artigo é uma réplica da Newsletter da HashInvest disponibilizada por e-mail e publicada aqui com alguns dias de defasagem. Quer receber a Newsletter na íntegra? Assine inserindo o seu e-mail abaixo:

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